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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Autogestão como ação transformadora da realidade


Nidia Lara Olivar
Acadêmica do 4º semestre do curso de Ciências Sociais da UFFS - Licenciatura
Campus Erechim
Land and Freedom” é o título original do filme “Terra e Liberdade” (1995) do cineasta Ken Loach, vencedor do Oscar francês, elogiado no Festival de Cannes pela Critica Internacional. Méritos para o diretor Loach que traz uma adaptação para o cinema do livro de George Orwell, “Lutando na Espanha” (1938) e retrata com muita propriedade os movimentos anarquista, socialista, comunista e reformista do início do séc. XX. Este trabalho é uma tentativa de comparar elementos do filme com o texto de Nildo Viana “Democracia e Autogestão” (2008).
Nildo Viana é professor da UEG – Universidade Estadual de Goiás e doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília. No texto, o autor comenta que é preciso ter cuidado ao tentar estabelecer uma relação entre democracia e autogestão, já que o resultado depende em muito da definição e do significado atribuído a estas palavras. Viana traz ainda a discussão do conceito e de como definir estes termos. Na apresentação de sua tese, o autor comenta que a oposição entre democracia e autogestão depende muito do momento histórico.
            No filme, o autor Orwell é representado por David Carr (Ian Hart), membro do Partido Comunista da Grã-Bretanha, que estando desempregado deixa sua cidade natal, Liverpool e segue para a Espanha para lutar por seus ideais ao lado dos republicanos. O diretor Loach foi feliz ao fazer uma reconstrução sobre a Guerra Civil Espanhola, narrando a história de um povo no sangrento combate entre fascistas e comunistas, mostrando as divergências entre as organizações de esquerda. Terra e Liberdade, um dos melhores trabalhos do cineasta, mostra um conjunto de temas que podem ser utilizadas para uma reflexão critica que ajuda na compreensão de disputas ideológicas e políticas entre estes movimentos.
O cinema é um instrumento que ajuda a compreender a realidade. E o autor Loach se utiliza bem deste instrumento para contar a história de David Carr, vista pelo ângulo das recordações de sua neta (Suzanne Maddock). Toda a história vai sendo construída pelo cineasta através das cartas, dos recortes de jornais, documentos antigos e um punhado de terra, deixados por Carr, após a sua morte. Assistir ao filme permite compreender um pouco mais sobre a Guerra Civil Espanhola mantendo os sonhos de liberdade e na esperança de ver concretizada mudanças radicais nas sociedades.
O diretor Loach através de um momento histórico importante levanta questões que ajudam a analisar não só o passado, mas que também serve de base para discutir o debate político contemporâneo. No filme o cineasta faz uma abordagem crítica da Guerra Civil, de uma triste realidade e mostra possibilidades de construir uma nova ordem social, fundada na autogestão. Contudo, para Viana somente a participação da sociedade civil não é o suficiente para se definir que se há ou não autogestão. O autor comenta que pensar a autogestão como relação de produção deriva da generalização de que todas as relações em sociedade partem de um conceito “antecipador”, já que “o conceito de autogestão não expressa nenhuma realidade já existente”. (VIANA, p. 63)
Mas a Guerra Civil Espanhola, com certeza expressou uma realidade: a concretização de um sonho. Um modelo de autogestão, talvez o mais significativo deste século. Percebe-se que para o autor existem várias formas de compreender o que é autogestão, mas o recorte feito por Viana através da perspectiva de autores como Marx e Pannekoek, parte do conceito de autogestão, mas sem se afastar da história da sociedade. O professor Viana traz ainda a contribuição dos autores A. Guillerm e Y. Bourdet (1976) de que é preciso conhecer esta diferença: a ”autogestão não possui o mesmo significado que participação, co-gestão, controle operário ou cooperativismo”. (VIANA, p.64)
No filme “Terra e Liberdade”, além do tema da guerra civil, a trama mostra o início de uma revolução civil, na qual os grupos de esquerda se apropriam das terras e das propriedades no intuito de mostrar a necessidade e viabilidade da socialização dos meios de produção. Em virtude da complexidade dos elementos trazidos pela revolução social bem como o peso que este conflito gerou na sociedade é possível que se faça um questionamento: - como comparar o filme com o texto do autor Nildo Viana? Será que a concepção de entendimento de Democracia e Autogestão para o autor é a mesma verificada durante o movimento revolucionário?
No texto, Viana comenta que Democracia e autogestão podem ser vistas como opostas ou complementares. Do conjunto de teóricos que defendem a tese de complementaridade entre estes dois conceitos, o autor destaca a contribuição de Carlos Nelson Coutinho, filósofo marxista e professor de Teoria Política da UFRJ entende que a democracia é “indispensável à realização do socialismo e o socialismo é condição necessária ao pleno desenvolvimento da democracia”. (COUTINHO, entrevista/2008)
Coutinho, a partir da Tese de Lênin e Trotsky de que com a queda do poder da burguesia, o proletariado iria chegar ao poder retoma outros autores, como Rosa Luxemburgo, Max Adler, Otto Bauer, para justificar o seu pensamento, já que sua tese de dualidade dos poderes defende a existência do poder do proletariado e o poder da burguesia. O primeiro representado pelos conselhos de operários, “os sovietes” e o segundo simbolizado no texto pela figura do Estado.
 No filme o diretor Loach busca analisar quais os motivos que ocasionaram o fracasso da Revolução, já que tudo indicava que os trabalhadores poderiam escrever a sua história, modificar suas vidas e transformar a sociedade. A postura crítica de Loach está visivelmente comprometida com a realidade no filme e nos ajuda a entender porque não se saiu vitorioso deste acontecimento. Esta mesma postura está presente em Viana, ao comentar que “segundo Coutinho, é preciso ir além da concepção restrita de Estado e de revolução explosiva para constituir uma concepção ampliada de Estado”. (VIANA, p. 59)
O cineasta destaca os personagens do filme como agentes capazes de transformar a sociedade, sendo que para que isso aconteça é necessário abolir o Estado. Diferentemente da opinião de Coutinho, presente no texto de Viana, de que é necessário promover “reformas” nas estruturas. A análise do autor está focada na forma como o Estado se relaciona com as classes sociais, argumentando que a organização de uma sociedade autogerida é consequência de uma democracia representativa.
Para o autor existem duas formas de conceber a autogestão: a primeira como uma forma do trabalhador se organizar dentro da sociedade capitalista. Este trabalhador continua submetido ao Estado, às leis e ao mercado, que para Viana, essa ainda é uma forma limitada de organização. E a segunda como uma forma de negação da sociedade capitalista, que fundamentada no marxismo é a posição defendida pelo sociólogo. Segundo Viana, qualquer modo de produção possui uma determinação expressa pela “relação de produção capitalista” fundamentado na sociedade capitalista – “o capital não é só os meios de produção mas é, fundamentalmente, uma relação social, uma relação de produção.” (VIANA, p. 08)
O professor Viana traz ainda a posição antagônica de que a autogestão seria uma relação de produção, na qual os próprios trabalhadores seriam responsáveis por gerir o processo de produção, que em Marx autogestão seria a “livre associação dos produtores”. O autor finaliza o texto comentando que a “democracia representativa fora do capitalismo é um anacronismo” e traz sua concepção de autogestão - um conceito distinto e incompatível com as relações sociais capitalistas. Portanto, para Viana a autogestão é um sonho possível de se realizar no sentido de proporcionar ao trabalhador a liberdade tão desejada.

Referências Bibliográficas:

COUTINHO, C. N. Socialismo e Liberdade. Disponível em: <http://www.socialismo.org.br/portal/filosofia/154-entrevista/635> Acesso em 07 nov.2011.Entrevista concedida a Fundação Lauro Campos, em 15 nov. 2011.

VIANA, Nildo. Democracia e Autogestão. S.d. Disponível em: <www.achegas.net/numero/37/nildo_37.pdf>

QUINSANI, R. H.; Revolução em película: as disputas e conflitos no interior do processo revolucionário a partir de Terra e Liberdade. Artigo publicado no Caderno de Pesquisas, Florianópolis, v.11, n.99, p. 111-147, jul 2010.

Terra e Liberdade (Land and Freedom, 1995). Diretor: Ken Loach. 109min.


Autogestão: prática e teoria

Gabriel Claro da Rosa
Acadêmico do 4º semestre do curso de Licenciatura em Ciências Sociais da UFFS
Campus de Erechim

O presente artigo possui como base o artigo Democracia e Autogestão, escrito pelo professor Nildo Viana, onde o mesmo expõe algumas concepções sobre democracia e autogestão, que por vezes podem ser conceitos antagônicos, por vezes complementares. E também como auxiliador de reflexão o filme La Cicília, a historia real de um grupo de anarquistas italianos que fundam uma colônia anarquista no interior do Brasil.
A experiência anarquista apresentada no filme é um tipo de autogestão livre de qualquer forma de governo, o que Viana chamaria de uma “democracia direta”. A democracia direta diferentemente da “democracia moderna”, ou seja, uma democracia representativa, cada individuo fala por si, é responsável por si, não tem que obedecer um senhor ou qualquer outra figura de autoridade. Por mais que por vezes no decorrer do filme seja possível observar que alguns dos membros da colônia mostrem-se propensos a estabelecer certo grau hierárquico perante seus camaradas, seja isso de forma apenas teórica, ou mesmo, pratica. Tal fato fica mais evidenciado ao nos portarmos a condição submissa que algumas mulheres ocupam perante seus maridos.
Nildo define autogestão como sendo uma:
Relação social específica, uma relação de produção, o que significa relação de trabalho e de distribuição. Autogestão seria a decisão coletiva dos produtores sobre o processo de produção, isto é, os próprios produtores iriam gerir o processo de produção. (VIANA, s.d)
Infelizmente no que tange as Ciências Sociais, nem sempre teoria e pratica caminham lado a lado, não é por uma simples questão de formalidade algumas que teorias são divididas em real e teórico. Com a colônia de La Cecília não foi diferente, o processo de produção gerenciado pelos próprios produtores não se saiu tão bem quando em teoria, primeiramente porque nem todos os indivíduos que lá estavam eram produtores rurais e sabiam como trabalhar a terra, vemos no filme passagens claras de desentendimento entre o grupo, onde alguns queriam descansar e outros trabalhar. Como resolver tal impasse, no filme, a solução foi cada um fazer seu próprio ritmo de trabalho, porem mais a frente vemos que a discussão não para por ai, e sim, gera uma nova questão, como dividir os frutos do trabalho coletivo, tendo em vista que alguns trabalharam mais que outros?
 Há problematizações que são praticamente impossíveis de serem resolvidas no âmbito da pura conversa, mesmo a colônia La Cicília sendo uma pequena propriedade de pessoas com uma mesma ideologia e vontade, apresentou questões de difícil solução. Sendo assim, podemos nos indagar, qual seria a melhor forma de governo, uma democracia direta onde todos são livres e possuem voz ativa no processo decisório, ou uma democracia representativa, onde apenas alguns possuem a oportunidade de falar em nome de outros?
 As duas formas de organização possuem seus prós e contras, entretanto o que nos vale é analisar qual delas é verdadeiramente viável, ou seja, qual dessas formas de organização social é possível aplicar nos dias de hoje e com reais chances de sucesso. Quais quer outras formas aparentemente possíveis, por melhor que sejam, não serão nada além de meros ideais a serem seguidos.
 Haja vista que possíveis organizações autogestionadas são independentes umas das outras, cabe a cada organização ter muito claro para si os seus objetivos no que tange “justiça” e “eficiência”. Será possível tais conceitos serem levados a prática sem que um entre em detrimento de outro?
 O sistema capitalista busca ser eficiente, porem para tal fim, nega uma visão justa. Seu objetivo é a produção em grande escala, e nisso é inquestionavelmente eficiente, entretanto ao se tornar eficiente causa por consequência direta e indireta grandes injustiças. Seja pela exploração de trabalhadores, seja pela inócua divisão de seus resultados.
 Comunidades auto-organizadas seriam capazes de realizar a produção de seus bem de consumo mais básicos de forma a suprir as necessidades de todos os seus membros? Teorias que embasam o pensamento da auto-organização se encontram fundamentalmente calcadas no tratamento e divisão igualitárias entre todos os seus membros, ou seja, justiça.
 Hobbes concebe a justiça como um valor presente na razão humana, que após a criação do Estado, exerce um papel mantenedor e decisivo em sua filosofia política na medida em que permite a estabilidade dos pactos entre os homens(Santos, 2007). Entretanto, em uma comunidade autogestionada não há a presença do Estado, então qual filosofia politica iria ser seguida, ou ao menos haverá alguma a ser seguida?
 Assim como Robert Dahl fala, a democracia é um ideal a ser alcançado, devemos tentar nos aproximar na pratica ao máximo do que achamos que é o perfeito. As questões a cerca de uma democracia “justa” e “eficiente” estão longe de serem sanadas, mas as materializações da autogestão nos ajudam a pensar quais a formas a se chegar a esse ideal.


REFERÊNCIAS


COMOLLI, Jean-Louis. La Cecília. 1975
DAHL, Robert A. (2005). Democratização e Oposição Pública. In DAHL, Robert A. Poliarquia. São Paulo: Edusp
Santos, Murilo Angeli Dias dos. O conceito de justiça em Thomas Hobbes e suas conseqüências jusfilosóficas. São Paulo, 2007. [online] Disponível via internet WWW.URL: <http://www.usjt.br/biblioteca/mono_disser/mono_diss/034.pdf> Arquivo capturado em 29 de novembro de 2011.
VIANA, Nildo. Democracia e Autogestão. Goias, s.d.[online] Disponível via internet WWW.URL: < http://www.achegas.net/numero/37/nildo_37.pdf> Arquivo capturado em 29 de novembro de 2011.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A autogestão em ‘Terra e Liberdade’, de Ken Loach


Clarissa Deggeroni
Acadêmica do 4º semestre do Curso de Licenciatura em Ciências Sociais
UFFS - Campus de Erechim

O filme Terra e Liberdade (1995), de Ken Loach, conta a história de um operário inglês, David Carr, que se alista voluntariamente nas milícias pró-República da Guerra Civil Espanhola de 1936. Através do partido comunista, do qual é membro, David fica sabendo do massacre aos integrantes das esquerdas espanholas, e, primeiramente motivado por ideias românticas, viaja voluntariamente à Espanha, juntamente com comunistas e anarquistas de várias nacionalidades, para alistar-se nas milícias que lutam contra a tentativa de golpe do general Franco.
Na narrativa, a estrutura das milícias é, conceitualmente, participativa, tanto em relação ao fato das decisões serem tomadas na coletividade quanto, num momento inicial, no aspecto de gênero, pois admitia a participação das mulheres na guerrilha. Porém, não deixava de ser um poder militar, que lidava com as condições adversas que já estavam dadas (tanto nas questões internas de escassez quanto nas questões de política internacional e do apoio dos países ao lado republicano ou ao lado franquista), por isso precisava, pela contingência da situação, ser opressivo (realizar execuções rápidas, por a vida de civis em perigo, etc). Mesmo diante disso pode-se perceber um claro contraste da estrutura das milícias com as Brigadas Populares (de orientação stalinista), as quais tinham como aspecto central a hierarquia e a obediência (relações de poder). As experiências libertárias preveem a extinção do exército permanente: “Tal como fizeram os proletários durante a Comuna, deve-se abolir o exército permanente e a burocracia do estado” (Viana, p. 68).
Outro elemento importante do filme se dá após a conquista do vilarejo ocupado pelas tropas franquistas (‘os fascistas’). Trata-se da discussão que os personagens fazem sobre a coletivização das terras locais. O processo se dá através de uma assembleia na qual são expostos os argumentos dos presentes. De um lado, houve a defesa da propriedade individual através do argumento sobre a justiça de colher os frutos do próprio trabalho, do outro, houve a defesa da coletivização das terras em virtude da falta de alimentos, e também porque seria uma experiência para colocar a ideologia da revolução na prática. Venceu a proposta da coletivização das terras e a distribuição dos alimentos para todos.
Para entender a lógica da coletivização, tem que se analisar as mudanças em relação ao controle dos meios de produção e às relações de produção. Com a abolição da propriedade privada, o objetivo era a produção coletiva na terra, o que aumentaria a produtividade no período de guerra e poderia alimentar a todos segundo suas necessidades. Pode-se dizer que isso tem como decorrência não somente um controle da produção - ou seja, “‘supervisionar’, ‘inspecionar’ ou verificar as decisões tomadas por ‘instâncias exteriores’ ao processo produtivo” (Viana, p. 64).
No contexto apresentado no filme, a proposta abrangia novas relações de produção, que eliminariam a mais-valia (não há necessidade de lucro dos donos dos meios de produção já que todos possuem os meios de produção) e há predominância do trabalho vivo sobre o trabalho morto (a maior parte dos frutos do trabalho retornar ao trabalhador). A essas práticas denominamos autogestão.  A autogestão é uma relação de produção que se generaliza e se expande para todas as outras esferas da vida social. [...] A autogestão significa que os próprios ‘produtores associados’ dirigem sua atividade e o produto dela derivado” (Viana, p. 67). Essa mudança era considerava tão brusca, que durante a narrativa foi posto em questão o medo que tal mudança causava nos países capitalistas e até na União Soviética, por seus interesses em negociar com os países ocidentais.
A construção de outro modelo de sociedade, imaginada pelos espanhóis e retratada no filme, é impossibilitada pelas disputas políticas entre os diferentes partidos que inicialmente haviam se unido em torno do inimigo fascista em comum, em especial ao considerável poder militar russo no contexto da época. A visão estatizante e imperialista do stalinismo (que defendia, pelo menos teoricamente, uma forma de controle operário, com demandas econômicas ditadas pelo partido), contrastava com a ideia das práticas de autogestão, que necessitavam de uma mudança de mentalidade, tanto nas relações de produção quanto nos conceitos políticos, em relação à presença de hierarquias e relações de poder. Com a continuação da mudança local, como diria David, os milicianos poderiam ter ‘mudado o mundo’, porém precisavam mudar as velhas mentalidades travestidas de ideais democráticos e populares, como o stalinismo.

Referências

1 – VIANA, Nildo. Democracia e Autogestão. S.d. Disponível em: <www.achegas.net/numero/37/nildo_37.pdf>
2 – Terra e Liberdade (Land and Freedom, 1995). Diretor: Ken Loach. 109min.

Disputa pelo controle da Espanha – Democracia x Autogestão

Luciano Andre Perosa
Formado em História - Licenciatura e Bacharelado - pela PUC-RS
Licenciando do curso de Ciências Sociais da UFFS de Erechim

Ao final da década de 20, para ser mais preciso, na terça-feira negra do dia 29 de outubro de 1929, a Grande Depressão varreu os Estados Unidos e a Europa. A Espanha, neste período, passava por uma grave crise política e econômica e estava sobre o comando do ditador Primo de Rivera. Contudo, um forte movimento pela democracia ganhou força em todo país, levando a renuncia do mesmo em janeiro de 1930, que fugiu para Paris, onde morreu sete semanas depois.
O rei Afonso XIII teve uma nova oportunidade de reassumir o poder, porém, fracassou. A Igreja Católica não acreditava que pudesse proteger a Espanha dos anarquistas. Todos estavam preocupados com o fantasma da democracia, no qual o comunismo poderia se infiltrar. Nas ruas, manifestantes exigiam eleições, muitas vezes apoiados por divisões das Forças Armadas.
O cenário estava armado, mas foi no outono de 1930, que dois grupos até então inimigos – os republicanos e os socialistas – concordaram em unir esforços para abolir a monarquia e estabelecer uma República democrática.
As eleições municipais marcaram o triunfo da República. O povo dançava e bebia pelas ruas, em homenagem a “La Niña Bonita” – a Garota Bonita –, nome carinhoso com que designavam a Nova República Espanhola. Enquanto isso, o rei Afonso XIII se exilou na Itália.
Entretanto, a Espanha passou a sofrer ataques anarquistas, que usavam a violência para demonstrar sua oposição à criação da República Espanhola. O governo nomeou o General Sanjurjo para reorganizar os 30 mil guardas civis, criando uma milícia especial, os asaltos, treinados para reprimir rebeliões nas grandes cidades. A violência policial aumentou rapidamente. Para acalmar a população, o governo anunciou eleições gerais, para as Cortes, a serem realizadas no dia 28 de junho de 1931.
Como se previa, os últimos conservadores foram varridos das Cortes, substituídos por socialistas moderados e republicanos progressistas, que logo elaboraram uma Nova Constituição Republicana. A mesma ficou pronta em Dezembro de 1931 e, continha garantias como: igualdade perante a lei, o sufrágio universal, separação entre Estado e Igreja, educação primária gratuita e obrigatória, direitos trabalhistas entre outros.
Os generais, entre eles, Franco e Sanjurjo, acreditavam que o novo governo não duraria para sempre e, quando caísse, os monarquistas e conservadores poderiam restabelecer o poder. Somente uma revolução socialista faria com que o governo deixasse de servir aos ricos senhores de terras e os industriais. Por isso, Sanjurjo, cansado de esperar, organizou um grupo de oficiais do Exército, e preparou um golpe. Aliaram-se aos monarquistas e à Igreja, tomaram o controle de Sevilha. Depois de uma rápida vitória, subestimaram, porém, as forças populares que desejavam manter a democracia. Estes lutaram bravamente para não permitir um golpe militar. Sanjurjo decepcionado com o fracasso tentou escapar pelo litoral, foi preso e condenado à morte, mas morreu anos depois num acidente aéreo.
Com as forças republicanas e socialistas acumulando fracassos no governo, muitas pessoas se afastavam da política. A Espanha tendia a direita. Foi então que surgiu em 1933, José María Gil Robles, admirador do líder nazista Adolf Hitler. Gil Robles organizou um novo e poderoso grupo de oposição – CEDA – Confederação Espanhola das Direitas Autônomas. Em 1933, a CEDA venceu as eleições gerais, conduzindo Gil Robles e mais 110 deputados ao parlamento.
Foi em meados do segundo semestre de 1933 que, José Antonio Primo de Rivera, filho do ditador morto, organizou a Falange, um partido fascista, que pretendia controlar o país com mãos fortes. Entre suas principais medidas, podemos citar: fim às liberdades individuais, abolir os sindicatos e organizar grupos militares.
Novas insurreições tomaram conta da Espanha. Gil Robles e os membros da CEDA preparavam-se para iniciar o massacre, bastaria provocar os mineiros de Astúrias e seus aliados, radicais opositores do governo. Foi neste período que Francisco Franco começou a se destacar como grande estrategista militar. Franco se encontrou com o ministro de guerra, Diego Hidalgo, e disse que a Espanha não possuía Exército capaz de derrotar os mineiros. Apenas as tropas de choque do norte da África poderiam se encarregar disso. A Legião Estrangeira Espanhola e os Regulares marroquinos desembarcaram nas Astúrias cantando o lema: “Viva a morte”. Imediatamente iniciaram o bombardeio com aviões, enquanto os tanques massacravam por terra. Os mineiros resistiram por duas semanas e somente quando a munição se esgotou que ofereceram a rendição.
Franco não obedeceu à ordem de retirada. Além disso, rearmou suas tropas durante um mês e atacou numa campanha de terror sistemática para dizimar a oposição. Este episódio morreu mais de 1000 mineiros, enquanto 30 mil foram presos e torturados. As mulheres foram violentadas e metralhadas juntamente com as crianças. Gil Robles tornou-se o novo ministro da guerra, e indicou Franco para chefia do Estado Maior.
Foi durante o mês de janeiro de 1936, que o povo espanhol se envolveu numa brutal campanha militar retratada no filme Terra e Liberdade. O massacre nas Astúrias e reestruturação das forças armadas haviam mostrado aos republicanos o perigo do crescimento da direita. Contudo, os republicanos, socialistas, comunistas uniram-se numa coalizão e criaram a Frente Popular, cujo objetivo era impedir que a direita ganhasse o poder. Essa união era formada pela União dos Trabalhadores da Estrada de Ferro; CNT – da União Anarquista; POUM (Partido dos Trabalhadores de Unificação Marxista); FAI. Já o grupo de direita também havia se unificado para as eleições contra a Frente Nacional, que incluía o CEDA, os monarquistas, latifundiários, empresários e à Igreja Católica. Francisco Franco apoiou à direita porque queria a restauração dos poderes das Forças Armadas.
A vitória esmagadora da Frente Popular gerou protestos da direita que tachou a eleição de ilegal, novamente o cenário estava armado com violência. Assim que os votos foram contados, a conspiração recomeçou. Desta vez, Franco estava disposto a participar, junto com três generais rebeldes: Emílio Mola Vidal, Manuel Goded Llopis e Sanjurjo. Porém, as informações do golpe vazaram e, os líderes da República prenderam José Antonio Primo de Rivera. O partido falangista foi posto na ilegalidade. Franco foi exilado na ilhas Canárias, 1300 km a sudoeste da Espanha. Antes de partir, Franco se despedir do presidente Alcalá Zamora que lhe disse: “Não se preocupe, general, não se preocupe... não haverá comunismo na Espanha” (PASSOS, 1987, p. 47). E o general gritou: “Disso tenho certeza... e posso lhe garantir que, quaisquer que sejam as contingências, estejam eu onde estiver, jamais haverá comunismo” (Idem, 1987, p. 47).
Cauteloso Francisco Franco fazia planos para chegar ao topo do poder, mas para isso, seria necessário usar uma arma especial, a estratégia. Primeiro passo seria sair das ilhas Canárias, atravessar o Atlântico até Marrocos e, então, transportar milhares de homens para a Espanha. A primeira parte foi fácil, um piloto contratado levou Franco até o Norte da África. Em Tetuán, na África, um repórter perguntou-lhe quanto tempo duraria o massacre. Franco respondeu: “Não pode haver acordo, não pode haver trégua... salvarei a Espanha do marxismo, a qualquer custo... eu repito: a qualquer custo!” (Idem, 1987, p. 50).
Franco imobilizado com seus soldados na África contou com alguns acontecimentos favoráveis. Sanjurjo morreu em um misterioso acidente aéreo. Goded foi capturado em Barcelona. O único rival de Franco na liderança da revolta era Mola, que estava muito bem posicionado em território espanhol. Contudo, o estrategista Franco solicitou apoio de Mussolini e Hitler para que lhe enviassem aviões de transporte, sendo amplamente atendido e, assim, conseguiu transportar seu exército.
Hitler atendeu ao pedido de Franco, mas impôs condições: “Em primeiro lugar, para evitar o avanço do comunismo; em segundo, para testar alguns detalhes técnicos da jovem Luftwaffe” (Idem, 1987, p. 52) – Legião Condor – Força Aérea Alemã. Aproximadamente 500 mil de espanhóis serviram de cobaias humanas no teste do primeiro bombardeio sobre população civil em grande escala. O episódio foi retratado uma obra memorável do pintor Picasso, denominada de Guernica.
Em 27 de abril de 1937, o Times publicou esta notícia: ‘Ontem à tarde, Guernica foi totalmente destruída por um ataque aéreo. O bombardeio da cidade durou três quartos de hora. Nesse tempo, uma esquadrilha de aviões lançou bombas de até 500 quilos, enquanto os caças metralharam os habitantes que saíram fugindo. Tudo ficou envolto em chamas’ (MARQUÉS, 2007, p. 70).


Guernica, 1937, óleo sobre tela, 349,3 x 776,6 cm – Madri: Museu Reina Sofia

Aqui não há heróis, só vítimas, não há natureza, só ruas arrasadas; não há dignidade nem na vitória nem no perdão, só a atrocidade do está impiedosamente arrasado; não há soldados, guerreiros, lutadores, só a violência mais desmedida [...], Picasso renuncia à representação da reportagem do bombardeio. O artista narra o gesto de dor, a impotência, o desamparo, o medo, a tragédia e a crueldade da guerra. O horror de Guernica ficou presente na consciência coletiva (Idem, 2007, p. 68-72).
           
A Guerra Civil Espanhola teve início entre 17 e 18 de julho de 1936, e terminou em 1º de abril de 1939, com a instauração de um regime ditatorial, baseado no caráter fascista, quando Franco anunciou aos entusiasmados monarquistas e nacionalistas que se tornara generalíssimo (comandante supremo das Forças Armadas) e chefe do Estado, com autoridade suprema sobre a nação. Conforme podemos comprovar na seguinte citação: “General e colegas generais. Podem ficar orgulhosos. Receberam uma Espanha dividida e agora me entregam uma Espanha unida em torno de um grande ideal. A vitória está do nosso lado (...). Não falharei. Levarei a pátria ao topo, ou morrerei na tentativa.” (Francisco Franco)[1]
O filme “Terra e Liberdade” nos mostra este contexto histórico, de um lado o Exército fascista e de outro a classe de operários e sindicalistas que tinham o objetivo de tornar a Espanha livre dos antigos moldes. Além disso, é baseado na experiência do autor de “A Revolução dos Bichos”, George Orwell. Esse autor participou na Guerra Civil Espanhola e escreveu o romance “Home­na­gem à Cata­lu­nha” que serviu de inspiração para o filme.
Durante se desenrola o filme, percebe-se que o jovem protagonista largou tudo para participar de uma causa maior, aqui vemos o conceito de “participação” que aparece no texto do Viana, quando distingue as formas de autogestão. O jovem passa lutar juntamente com os camaradas do POUM.
Participação não significa autogestão, pois ela significa participar de algo já existente, ou seja, de uma atividade que possui estrutura e finalidade próprias (VIANA, 2003, p. 64).

Tais grupos de comunistas, anarquistas, socialistas, uniram-se com o objetivo de combater o Fascismo, numa “arena onde se desenvolve a luta de classes” (Idem, 2003, p. 62). Isso fica evidente em muitas partes do filme “Terra e Liberdade”. Além disso, tem uma parte do filme que fica evidente o debate da autogestão, quando se reúnem na casa de “Don Julian” para discutir a coletivização da comida, pois as tropas fascistas invadiram a aldeia e não deixaram nada de alimentos. A ideia é a coletivização das terras de “Don Julian”. Inicia-se um debate sobre esse tema, sendo que para manter a revolução caminhando seria necessário coletivizar as terras. Todos trabalhariam juntos para assim construir uma sociedade nova.
A autogestão seria a decisão coletiva dos produtores sobre o processo de produção, isto é, os próprios produtores iriam gerir o processo de produção. A autogestão é uma relação social fundante de uma nova formação social, uma nova sociedade. Nesta perspectiva, a autogestão seria um processo de autogoverno, ou uma ‘livre associação dos produtores’, segundo expressão de Marx (Idem, 2003, p. 60).
Além dos próprios cidadãos espanhóis que lutaram por seus direitos, é importante salientar que tiveram também movimentos de comunistas e democratas, provenientes dos mais diversos países do mundo – França, Inglaterra, Itália, Alemanha, Rússia, Hungria e incluindo na América (Estados Unidos, Canadá, Brasil, Argentina e Uruguai) –, todos se engajaram na luta comum no território espanhol contra o Exército Fascista de Franco.

Eis que fica a pergunta: como Franco obteve vitória? Além de hábil estrategista, como já vimos, conseguiu apoio de Hitler e Mussolini não apenas para efetuar o transporte das tropas, mas acima de tudo, para obter suprimentos ilimitados do exterior, principalmente do Exército Nazista.
 No período que Franco subiu no poder na Espanha, a ascensão do nazismo na Alemanha ganhava força.
Hitler já havia incorporado o ditador fascista da Itália, Benito Mussolini, em seus projetos imperialistas. Os dois líderes cuidavam de ajudar a insurreição nacionalista na Espanha, enviando armas sofisticadas e tropas de combate. Liderada pelo General Francisco Franco, essa rebelião militar pretendia depor o governo republicano, acabando com a frágil democracia espanhola (PASSOS, 1987, p. 7).
No filme fica evidente as cenas de conflitos em várias regiões da Espanha. Mostra que o Exército Fascista tinha armas e que os revolucionários estavam com artilharias precárias e restritas, facilitando sua queda. O que pouco sabem, e que não é tratado no filme, é que o final da Guerra Civil Espanhola, deixara um saldo de quase um milhão de mortos. A pergunta que fica: quantos mortos e desaparecidos ficaram ao final da ditadura militar de Franco? 
Para finalizar, quero salientar que tanto no filme “Terra e Liberdade”, como no texto do Viana – “Democracia e Autogestão” –, fica evidente que a proposta de Autogestão tem tudo pra dar certo, como: três anos na Catalunha na Espanha, Ucrânia, Iugoslávia, Chiapas no México; desde que tenha a cooperação de todos sem benefícios próprios. Contudo, a democracia atual com seu sistema de capitalismo pode prejudicar de certa forma a Autogestão.

REFERÊNCIAS


MARQUÉS, María José Mas. Coleções Gênios da Arte. v. 4. Picasso. São Paulo: Girassol, 2007.

PASSOS, Silvia C. Os Grandes Líderes: Francisco Franco. São Paulo: Editora Nova Cultura, 1987.

VIANA, Nildo. Estado, Democracia e Cidadania. Rio de Janeiro: Achiamé, 2003.


[1] PASSOS, Silvia C. Os Grandes Líderes: Francisco Franco. São Paulo: Editora Nova Cultura, 1987, p. 59.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Autogestão, Cinema e História



Nos próximos dias estaremos recebendo nesse espaço a contribuição dxs estudantes cursantes da disciplina Sociologia da Auto-eco-organização (Tópicos Especiais de Sociologia II), ministrada pelo prof. Cassio no 2o semestre de 2011. Como parte das atividades vinculadas à chamada "Prática como Componente Curricular", prevista para esta disciplina, xs estudantes publicarão e comentarão seus próprios artigos e ensaios, produzidos à luz do debate com um texto do prof. Nildo Viana (Democracia e Autogestão) e as reflexões sobre os filmes "Terra e Liberdade" (Ken Loach) e "La Cecilia" (Jean Comolli). A ideia, na esteira da própria matéria cursada, é discutir alguns conceitos básicos relacionados a teoria e a prática da autogestão, considerando a relevância de algumas experiências históricas.